Centro Marian Weiss

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Jackson Wesley Valério

" Lembre-se de que você sempre estará em condições mais favoráveis que milhões de pessoas e, de posse dessa causa, faça valer a pena ter vivido ”.

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Empresa lança curativo natural para diabéticos
Criado para o tratamento de ferimentos ou cortes cirúrgicos, produto é feito de látex

O Estado de São Paulo - 14/06/2004
Como era a sua vida antes do acidente?
Sempre fui uma pessoa muito adepta das coisas radicais, de adrenalina. Neste contexto, posso citar paraquedismo, kart, mergulho, artes marciais... Como sou “elétrico”, precisava de canais para extravasar essa hiperatividade. No Fórum Cível, onde trabalho com meu pai, eram 8, 9 ou até mais horas de expediente por dia dentro do gabinete, o que me deixava ansioso para sair direto para a academia. Nela, eu fazia uma hora-aula de body combat (uma espécie de coreografias de artes marciais em ritmo acelerado), saía para correr 5 quilômetros e depois voltava para mais 1h30m de musculação, todos os dias. Tinha pique para passar a noite na balada, amanhecer passeando de lancha e esquiando numa represa que fica a 100 quilômetros daqui e na segunda de manhã chegar pontualmente ao trabalho.

O que aconteceu com você?
Vendi meu carro para comprar uma moto no estilo das Harley-Davidsons, a minha linda Virago 535cc verde e creme, zerinho. Teria muitas palavras para dizer o quanto foi bom, mas em resumo digo que esses 15 meses de motociclismo foram uma das melhores fases da minha vida, até o dia em que sofri um acidente, comentado em Cuiabá como o mais grave já visto na perigosa rodovia que liga a Capital à Chapada dos Guimarães. Quando acordei 21 dias depois no Hospital Sírio Libanês sem uma perna e os movimentos do braço esquerdo, me disseram que, numa curva, bati de frente com um caminhão carregado com 15 toneladas de terra, sendo arremessado 6 metros para trás. O capacete partiu ao meio, a moto teve perda total (partiu o motor e entortou o cardan) e o caminhão capotou, parando com as rodas para cima. No impacto, quebrei 12 ossos, sendo 5 fraturas na perna esquerda, 4 expostas. Também rompi 3 artérias: a sub-clávia (no coração), a que irriga o braço esquerdo e a que irriga a perna esquerda. Rompi todos os nervos do plexo braquial, de C5 a T1, perdendo a sensibilidade e os movimentos do braço, e tive traumatismo craniano na nuca e no lado direito da cabeça. Cheguei ao Pronto Socorro uma hora e meia depois, com um batimento cardíaco a cada segundo e meio e pressão 2. Devido à hemorragia interna, gastei 70 bolsas de sangue. Naquela primeira semana, tive 5 paradas cárdio-respiratórias, derrame pleural (2,5 litros de “água” no pulmão), rim trabalhando a 30% e 6 aparelhos ligados em mim. Colocaram 16 pinos no meu braço esquerdo, imobilizaram meu fêmur com um fixador externo de 6 parafusos e suturaram minhas artérias, mas eu continuava com 20% de chance de sobreviver. Meu boletim médico oscilava entre grave e gravíssimo. Fui para São Paulo em UTI do Ar, tive mais três paradas e choque séptico, enquanto tentavam salvar minha perna enxertando músculos extraídos do meu abdômem. Eu era “atração” na UTI, e todos os médicos vinham para admirar como eu continuava vivo mesmo naquela situação. Quando não havia mais chance para minha perna, meu pai assinou a autorização para a cirurgia. Foi com a amputação que meu quadro clínico melhorou, cessando a febre e voltei à consciência.

Como reagiu diante da realidade de ser um amputado?
Acordei, vi uma faixa abaixo do joelho e fiz sinais para uma enfermeira dizendo que não via meu pé esquerdo, ao que ela respondeu na maior naturalidade que “não teve jeito mas se eu comprasse uma prótese, poderia até usar sapato”... Como eu acordava e adormecia sem horários definidos, ainda meio zonzo pensei: “Ah..., mas depois cresce um pé novo...” e em outro momento, mais lúcido, assenti: “Se precisou amputar, era isso ou a vida...”, como de fato o foi. Não chorei, não me revoltei, não me desesperei, mesmo depois de sair da UTI e ir para o apartamento do hospital. Só tinha nojo de ver o curativo na perna, com aquela carne necrosada sendo retirada, acompanhada do cheiro de putrefação. Se eu tivesse apenas amputado, acredito que me revoltaria, mas somando ao fato de ter perdido os movimentos do braço esquerdo e conforme ia ficando ciente de tudo o que passei, fico é muito feliz por sobreviver, por ser o único a continuar vivo nas UTI’s de Cuiabá e do Sírio Libanês, mesmo sendo o paciente mais grave. Fiz até uma carta de despedida bem humorada para minha perna, que vocês já conhecem, e agora estou empenhado em escrever meu livro, “Quando a Vida Faz Uma Curva”.

Como chegou até o CMW ?
No Hospital das Clínicas, onde fiz uma cirurgia de 11 horas para religar os nervos do braço, certo dia recebi a visita de um homem de cabelos brancos e espírito jovial, que até hoje não sei como o indicaram. O Dr. Marco Guedes conversou comigo, disse que reabilitou o Lars Grael e isso me deu a segurança de que não estava nas mãos de qualquer curioso em pacientes amputados. Quando ao final mostrou sua prótese e disse que com ela jogava tênis, então me animei de vez e fui para a clínica começar todo o trabalho de reabilitação. No dia 30 de abril de 2003 saí andando da clínica e à noite fiz uma poesia sobre isso. Voltei outras vezes, fiz amizades com outros pacientes e até fiquei “famoso”, de certa forma (risos).

Quais as mudanças que você sofreu desde a sua amputação?
Costumo dizer que sou o mesmo e também já não sou o mesmo de antes do acidente. Ficou o bom humor, a espirituosidade... aumentou o valor das pequenas coisas e a espiritualidade. Quando estava ainda com os pinos na coxa, uma vez inventei de dispensar a cadeira de rodas e sair pulando no quarto. Dei um pulo para frente, outro pra equilibrar do primeiro e já chamei meu pai para me ajudar... eu estava branco de tão adrenalado, suava frio e tremia; chegar à cama e descansar foi um alívio, nunca mais tentei estripulias. Algo que me marcou muito foi dito pelo meu ex-instrutor de tae-kwon-do, para quem minha atitude de manter o bom humor e de me superar impressionava muito mais do que quando eu apenas tinha uma moto bonita.

Como passou a enfrentar os desafios da vida?
Tenho que ser mais paciente, acho um transtorno ter que colocar o liner, a meia de algodão e a prótese para qualquer coisa distante de mim mais que um passo, mas isso é também um símbolo, uma metáfora que uso para meus objetivos se concretizarem. Meu maior obstáculo é ter calma, já que não tenho mais a agilidade de antes. Também tenho que suportar a dor que sinto na mão desde a cirurgia no HC, em 10.10.02 (ela só acabará no dia em que a sensibilidade, que aumenta 1 milímetro por dia, chegar até a mão). Procuro encarar cada dia como uma maravilhosa “hora extra” que Deus me concedeu para buscar diminuir meus defeitos, cultivar minhas virtudes, aproximar-me mais da família e valorizar a vida.

Como é a sua vida hoje? Você é feliz?
Hoje tenho meu carro, trabalho de manhã no Fórum e pago para uma pessoa ficar no expediente da tarde, enquanto faço fisioterapia, escrevo meu livro ou saio para resolver alguma coisa na rua. Sou o testemunho vivo de um milagre, com 2,11 metros de cicatrizes; não perco a oportunidade de contar a minha experiência e vivo fazendo graça da minha condição, como “coçar” a prótese quando tem alguém olhando muito... Sempre que posso (dizem que fico um charme!), estou de bermuda no shopping, no centro da cidade, na igreja e até na noite cuiabana. Às vezes posso cruzar com um desconhecido e, se ele estiver amargo com a vida, quem sabe não reflita ao ver um cara de 26 anos sem a perna e com o braço balançando inerte? Sou muito feliz pela família que tenho, pelos amigos de verdade, pela namorada que Deus me deu, do jeito que eu procurava e que vim a conhecer somente após o acidente, pela chance de poder fazer a diferença para uma pessoa. Estou noivo desde 1º de janeiro desse ano, estudo para passar em um concurso na área jurídica e enquanto isso vou dando contornos aos meus objetivos de vida.

Como foi seu processo de reabilitação?
A reabilitação não é fácil, mas você tem que passar por ela. Como disse o Dr. Marco, reabilitação não é prótese, é uma série de atitudes a se tomar diante da nova realidade de vida. Eu, que era tão agitado, agora em casa passava 23 horas por dia em cima da cama, saindo apenas para tomar banho e fazer “outras coisas”... Meu conselho é que você saiba que a reabilitação é uma fase necessária em sua vida, e não o fim. Aproveite para refletir sobre pessoas que estão em estados piores, como os paralíticos. Faça um pouco das coisas que você gostava mas não tinha tempo, como assistir filmes ou ler um livro interessante (para mim eram os de vendas, empreendedorismo, investimentos, contabilidade, etc). Li também um romance em dois volumes, de 902 páginas cada um, sobre Musashi, o maior samurai que existiu; o primeiro li em 14 e o segundo li em 12 dias. Perceba as visitas que você recebe, como eu mesmo notei: haverá pessoas com vínculos distantes que te darão a maior força e também outras, que você tinha em alta conta, que sequer telefonarão. No primeiro mês foram 264 visitas, cujos nomes estão anotados e por quem serei eternamente grato. Só não se esqueça de uma coisa: antes de as pessoas dizerem que você deve ter alguma missão na vida por não ter morrido, encontre uma dentro do seu coração que seja honesta, altruísta e empolgante. Lembre-se de que você sempre estará em condições mais favoráveis que milhões de pessoas e, de posse dessa causa, faça valer a pena ter vivido.

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