Como era a sua vida antes do acidente?
Sempre fui uma pessoa muito adepta das coisas radicais, de adrenalina. Neste contexto,
posso citar paraquedismo, kart, mergulho, artes marciais... Como sou
elétrico, precisava de canais para extravasar essa hiperatividade. No Fórum
Cível, onde trabalho com meu pai, eram 8, 9 ou até mais horas de expediente por dia
dentro do gabinete, o que me deixava ansioso para sair direto para a academia. Nela, eu
fazia uma hora-aula de body combat (uma espécie de coreografias de artes marciais em
ritmo acelerado), saía para correr 5 quilômetros e depois voltava para mais 1h30m de
musculação, todos os dias. Tinha pique para passar a noite na balada, amanhecer
passeando de lancha e esquiando numa represa que fica a 100 quilômetros daqui e na
segunda de manhã chegar pontualmente ao trabalho. O que aconteceu com você?
Vendi meu carro para comprar uma moto no estilo das Harley-Davidsons, a minha linda Virago
535cc verde e creme, zerinho. Teria muitas palavras para dizer o quanto foi bom, mas em
resumo digo que esses 15 meses de motociclismo foram uma das melhores fases da minha vida,
até o dia em que sofri um acidente, comentado em Cuiabá como o mais grave já visto na
perigosa rodovia que liga a Capital à Chapada dos Guimarães. Quando acordei 21 dias
depois no Hospital Sírio Libanês sem uma perna e os movimentos do braço esquerdo, me
disseram que, numa curva, bati de frente com um caminhão carregado com 15 toneladas de
terra, sendo arremessado 6 metros para trás. O capacete partiu ao meio, a moto teve perda
total (partiu o motor e entortou o cardan) e o caminhão capotou, parando com as rodas
para cima. No impacto, quebrei 12 ossos, sendo 5 fraturas na perna esquerda, 4 expostas.
Também rompi 3 artérias: a sub-clávia (no coração), a que irriga o braço esquerdo e
a que irriga a perna esquerda. Rompi todos os nervos do plexo braquial, de C5 a T1,
perdendo a sensibilidade e os movimentos do braço, e tive traumatismo craniano na nuca e
no lado direito da cabeça. Cheguei ao Pronto Socorro uma hora e meia depois, com um
batimento cardíaco a cada segundo e meio e pressão 2. Devido à hemorragia interna,
gastei 70 bolsas de sangue. Naquela primeira semana, tive 5 paradas
cárdio-respiratórias, derrame pleural (2,5 litros de água no pulmão), rim
trabalhando a 30% e 6 aparelhos ligados em mim. Colocaram 16 pinos no meu braço esquerdo,
imobilizaram meu fêmur com um fixador externo de 6 parafusos e suturaram minhas
artérias, mas eu continuava com 20% de chance de sobreviver. Meu boletim médico oscilava
entre grave e gravíssimo. Fui para São Paulo em UTI do Ar, tive mais três paradas e
choque séptico, enquanto tentavam salvar minha perna enxertando músculos extraídos do
meu abdômem. Eu era atração na UTI, e todos os médicos vinham para admirar
como eu continuava vivo mesmo naquela situação. Quando não havia mais chance para minha
perna, meu pai assinou a autorização para a cirurgia. Foi com a amputação que meu
quadro clínico melhorou, cessando a febre e voltei à consciência.
Como reagiu diante da realidade de ser
um amputado?
Acordei, vi uma faixa abaixo do joelho e fiz sinais para uma enfermeira dizendo que não
via meu pé esquerdo, ao que ela respondeu na maior naturalidade que não teve jeito
mas se eu comprasse uma prótese, poderia até usar sapato... Como eu acordava e
adormecia sem horários definidos, ainda meio zonzo pensei: Ah..., mas depois cresce
um pé novo... e em outro momento, mais lúcido, assenti: Se precisou amputar,
era isso ou a vida..., como de fato o foi. Não chorei, não me revoltei, não me
desesperei, mesmo depois de sair da UTI e ir para o apartamento do hospital. Só tinha
nojo de ver o curativo na perna, com aquela carne necrosada sendo retirada, acompanhada do
cheiro de putrefação. Se eu tivesse apenas amputado, acredito que me revoltaria, mas
somando ao fato de ter perdido os movimentos do braço esquerdo e conforme ia ficando
ciente de tudo o que passei, fico é muito feliz por sobreviver, por ser o único a
continuar vivo nas UTIs de Cuiabá e do Sírio Libanês, mesmo sendo o paciente mais
grave. Fiz até uma carta de despedida bem humorada para minha perna, que vocês já
conhecem, e agora estou empenhado em escrever meu livro, Quando a Vida Faz Uma
Curva.
Como chegou até o CMW ?
No Hospital das Clínicas, onde fiz uma cirurgia de 11 horas para religar os nervos do
braço, certo dia recebi a visita de um homem de cabelos brancos e espírito jovial, que
até hoje não sei como o indicaram. O Dr. Marco Guedes conversou comigo, disse que
reabilitou o Lars Grael e isso me deu a segurança de que não estava nas mãos de
qualquer curioso em pacientes amputados. Quando ao final mostrou sua prótese e disse que
com ela jogava tênis, então me animei de vez e fui para a clínica começar todo o
trabalho de reabilitação. No dia 30 de abril de 2003 saí andando da clínica e à noite
fiz uma poesia sobre isso. Voltei outras vezes, fiz amizades com outros pacientes e até
fiquei famoso, de certa forma (risos).
Quais as mudanças que você sofreu
desde a sua amputação?
Costumo dizer que sou o mesmo e também já não sou o mesmo de antes do acidente. Ficou o
bom humor, a espirituosidade... aumentou o valor das pequenas coisas e a espiritualidade.
Quando estava ainda com os pinos na coxa, uma vez inventei de dispensar a cadeira de rodas
e sair pulando no quarto. Dei um pulo para frente, outro pra equilibrar do primeiro e já
chamei meu pai para me ajudar... eu estava branco de tão adrenalado, suava frio e tremia;
chegar à cama e descansar foi um alívio, nunca mais tentei estripulias. Algo que me
marcou muito foi dito pelo meu ex-instrutor de tae-kwon-do, para quem minha atitude de
manter o bom humor e de me superar impressionava muito mais do que quando eu apenas tinha
uma moto bonita.
Como passou a enfrentar os desafios da
vida?
Tenho que ser mais paciente, acho um transtorno ter que colocar o liner, a meia de
algodão e a prótese para qualquer coisa distante de mim mais que um passo, mas isso é
também um símbolo, uma metáfora que uso para meus objetivos se concretizarem. Meu maior
obstáculo é ter calma, já que não tenho mais a agilidade de antes. Também tenho que
suportar a dor que sinto na mão desde a cirurgia no HC, em 10.10.02 (ela só acabará no
dia em que a sensibilidade, que aumenta 1 milímetro por dia, chegar até a mão). Procuro
encarar cada dia como uma maravilhosa hora extra que Deus me concedeu para
buscar diminuir meus defeitos, cultivar minhas virtudes, aproximar-me mais da família e
valorizar a vida.
Como é a sua vida hoje? Você é feliz?
Hoje tenho meu carro, trabalho de manhã no Fórum e pago para uma pessoa ficar no
expediente da tarde, enquanto faço fisioterapia, escrevo meu livro ou saio para resolver
alguma coisa na rua. Sou o testemunho vivo de um milagre, com 2,11 metros de cicatrizes;
não perco a oportunidade de contar a minha experiência e vivo fazendo graça da minha
condição, como coçar a prótese quando tem alguém olhando muito... Sempre
que posso (dizem que fico um charme!), estou de bermuda no shopping, no centro da cidade,
na igreja e até na noite cuiabana. Às vezes posso cruzar com um desconhecido e, se ele
estiver amargo com a vida, quem sabe não reflita ao ver um cara de 26 anos sem a perna e
com o braço balançando inerte? Sou muito feliz pela família que tenho, pelos amigos de
verdade, pela namorada que Deus me deu, do jeito que eu procurava e que vim a conhecer
somente após o acidente, pela chance de poder fazer a diferença para uma pessoa. Estou
noivo desde 1º de janeiro desse ano, estudo para passar em um concurso na área jurídica
e enquanto isso vou dando contornos aos meus objetivos de vida.
Como foi seu processo de reabilitação?
A reabilitação não é fácil, mas você tem que passar por ela. Como disse o Dr. Marco,
reabilitação não é prótese, é uma série de atitudes a se tomar diante da nova
realidade de vida. Eu, que era tão agitado, agora em casa passava 23 horas por dia em
cima da cama, saindo apenas para tomar banho e fazer outras coisas... Meu
conselho é que você saiba que a reabilitação é uma fase necessária em sua vida, e
não o fim. Aproveite para refletir sobre pessoas que estão em estados piores, como os
paralíticos. Faça um pouco das coisas que você gostava mas não tinha tempo, como
assistir filmes ou ler um livro interessante (para mim eram os de vendas,
empreendedorismo, investimentos, contabilidade, etc). Li também um romance em dois
volumes, de 902 páginas cada um, sobre Musashi, o maior samurai que existiu; o primeiro
li em 14 e o segundo li em 12 dias. Perceba as visitas que você recebe, como eu mesmo
notei: haverá pessoas com vínculos distantes que te darão a maior força e também
outras, que você tinha em alta conta, que sequer telefonarão. No primeiro mês foram 264
visitas, cujos nomes estão anotados e por quem serei eternamente grato. Só não se
esqueça de uma coisa: antes de as pessoas dizerem que você deve ter alguma missão na
vida por não ter morrido, encontre uma dentro do seu coração que seja honesta,
altruísta e empolgante. Lembre-se de que você sempre estará em condições mais
favoráveis que milhões de pessoas e, de posse dessa causa, faça valer a pena ter
vivido. |