Louro e entusiasmado, Cameron Clapp parece um astro adolescente.
Vestindo camiseta desbotada, bermuda larga e tênis, ele percorre as calçadas apinhadas
de Times Square, em Nova York, caminhando com confiança, com o mesmo sorriso cintilante
que ilumina seu site na internet e fotos publicadas recentemente por jornais e revistas
dos EUA.
Poucos, ou talvez nenhum, dos transeuntes têm a menor idéia de que ele é exemplo de uma
nova geração de pessoas que está incorporando tecnologias revolucionárias ao próprio
corpo, para superar deficiências físicas, e não têm vergonha de expor isso em
público.
Para quem o vê pela primeira vez, Cameron é objeto de assombro - um jovem que caminha e
fala altivamente nas suas cintilantes pernas robóticas. "Faço a coisa parecer
fácil", disse Clapp que, aos 19 anos, ainda exibe trejeitos do garoto skatista
petulante que foi antes de se converter no que ele qualifica de um "caso grave".
Cameron perdeu ambas as pernas do joelho para baixo e teve o braço direito amputado bem
próximo ao ombro quando caiu nos trilhos de um trem, há quase cinco anos, nos arredores
de sua casa em Grover Beach (Califórnia).
Após anos de reabilitação e experiências com uma série de próteses, cada uma
tecnologicamente mais sofisticada do que a anterior, Clapp finalmente encontrou suas
pernas: a C-Leg (Perna C).Lançada pela Otto Bock HealthCare, uma empresa alemã, o modelo
combina tecnologia de computação com hidráulica. "Tenho muita motivação e
auto-estima, mas talvez encarasse a minha situação de forma diferente se a tecnologia
não estivesse, cada vez mais, do meu lado", disse o jovem.
Progressos retumbantes - obtidos com a utilização de materiais leves e, ao mesmo tempo,
resistentes, sensores aguçados e minúsculos microprocessadores programáveis - estão
devolvendo notáveis graus de mobilidade a amputados, disse William Hanson, presidente da
Liberating Technologies Inc. Mas algo mais sutil e possivelmente de maior alcance está
ocorrendo, dizem alguns estudiosos da área de tecnologia. A linha que durante muito tempo
separou os seres humanos das máquinas que os ajudam está se tornando indistinta à
medida que tecnologias complexas se tornam parte visível das pessoas que dependem delas.
27/06/2005
O que é carne e o que é máquina?
CORTESIA DA HANGER PROSTHETICS & ORTHOTICS, INC
NOVO CIBORGUE - Cameron Clapp perdeu as pernas e um dos braços atropelado por um trem,
mas hoje usa próteses de alta tecnologia e faz questão de exibi-las publicamente,
tornando-se conhecido nos EUA
A integração de peças de robótica ao corpo humano pode ajudar portadores de
deficiência a ter uma vida melhor
Michael Marriott
Cada vez mais, pessoas amputadas, particularmente homens jovens como Cameron Clapp, optam
por não esconder suas próteses debaixo de roupas. Ao contrário: alguns do 1,2 milhão
de amputados dos EUA orgulhosamente lustram e decoram seus membros eletrônicos para que
todos os vejam.
Há muito tempo um tema presente na ficção científica, a integração entre seres
humanos e máquinas ainda é vista como o prenúncio de um futuro sem alma, habitado por
ciborgues feitos de carne e metal. Mas universidades, empresas e as Forças Armadas
pesquisam como ajudar pessoas com deficiências físicas a ter uma vida melhor anexando ao
corpo peças de robótica - ou "exoskeletons".
"Existe uma fluidez maior entre o que é carne e o que é máquina. Surge algo como
uma 'consciência de ciborgue'", disse Sherry Turkle, diretora da Initiative on
Technology and Self (Iniciativa sobre Tecnologia e o Eu) do Massachusetts Institute of
Technology (MIT).
Próteses como a C-Leg têm se beneficiado do avanço tecnológico puxado pelos
computadores e telefones celulares. Segundo Hanson, da Liberating Technologies,
microprocessadores menores e mais poderosos e baterias recarregáveis têm impulsionado o
desenvolvimento de membros eletrônicos mais confiáveis.
Não existem estatísticas disponíveis sobre quantos amputados usam membros artificiais,
mas dados do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde mostram que, em 1994 (último ano
sobre o qual há números disponíveis), cerca de 200 mil pessoas nos EUA usavam membros
artificiais. Enquanto alguns usuários estão ávidos por mostrar suas maravilhas
protéticas, outros preferem tê-los modelados para parecerem mais humanos.
Além de vender próteses, a Liberating Technologies oferece 19 tipos de mangas de
silicone para fazer com que próteses pareçam mais naturais. "Duas coisas são
importantes: uma é a funcionalidade e a outra é a estética", disse Hanson.
"Os dois fatores têm importâncias diferentes de acordo com a pessoa. É preciso
pesar prós e contras."
Ele disse que uma garota de 16 anos talvez queira usar uma prótese que tenha uma
aparência mais natural. Já sua mãe de 35 anos talvez escolha um membro mais funcional.
Hope Harrison, professora de História e Temas Internacionais da George Washington
University (Washington), teve uma perna amputada em 1979. Aos 43 anos, Harrison disse já
ter usado várias próteses, mas agora está satisfeita com sua C-Leg. Só que, ao
contrário de Cameron Clapp, ela ainda prefere usá-la com um revestimento de aparência
natural.
"Uma coisa é ver um homem com uma perna de exterminador", disse Hope,
referindo-se ao personagem cibernético interpretado por Arnold Schwarzenegger.
"Algumas pessoas acham 'legal'. Mas, neste país, o ideal de mulher é aquela com
pernas finas e longas."
Já os homens mais jovens, particularmente aqueles acostumados a usar produtos
eletrônicos pessoais desde a infância, não vêem problemas em recarregar a bateria de
seus membros artificiais em público e conectar sua prótese ao computador para acertar o
software", afirma Hanson.
"Adoro minhas pernas de exterminador", disse Nick Springer, de 20 anos, aluno do
Eckerd College em St. Petersburg (Flórida). Ele perdeu os braços e as pernas em
conseqüência de uma meningite meningocócica, uma rara doença bacteriana adquirida
quando tinha 14 anos.
Como Clapp, Springer usa o sistema C-Leg acionado por bateria. Suas pernas possuem
sensores que registram o momento em que os pés pisam no chão. M icroprocessadores
situados na altura dos joelhos acionam o sistema hidráulico que permite ao usuário dar
um passo muito parecido com o normal.
Forte e atlético, ele disse nunca ter tido vergonha de suas pernas, que podem custar,
cada uma, mais de US$ 40 mil. Em sua festa de formatura, Springer chegou a usar um kilt
(saia escocesa). Quando vai a shows de rock, costuma usar um par de botas da Dr. Martens.
Ele conta que, durante uma festa, as baterias de íon de lítio descarregaram.
"Geralmente elas funcionam 30 horas, mas eu não tinha carregado completamente no dia
anterior", disse. O jeito foi passar a balada sentado em um sofá conversando com os
amigos enquanto suas pernas estavam conectadas numa tomada elétrica próxima. "Foi
legal", disse ele.
Para Michael Chorost, autor do livro Rebuilt: How Becoming Part Computer Made Me More
Human (Reconstrução: Como Ter me Tornado Parte Computador me Fez Mais Humano), as
pessoas já se acostumaram a ver os outros carregando aparelhos tecnológicos de uso
pessoal. "Começou com o walkman nos anos 80", disse. Por que não uma
prótese?, pergunta. Chorost, 40 anos, perdeu a audição há quatro anos e possui um
dispositivo cirurgicamente instalado debaixo da pele, atrás do ouvido. Ele precisa usar
um microfone do lado da cabeça.
Após ganhar notoriedade, Cameron Clapp, que tem seu próprio site - www.cameronclapp.com -, assinou um
contrato com o Hanger Orthopedic Group e tem viajado os EUA para mostrar que usar
próteses não tem nada demais.
Fã de esportes, ele tem três pares de pernas: um para caminhar, outro para correr e um
terceiro para nadar. Disse estar consciente de que chama a atenção em praticamente todos
os lugares aonde vai. "Posso não ser bonito. Mas me esforço ao máximo", disse. |