Centro Marian Weiss

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Fonte - programa Fantástico
TV Globo
- 21/03/2004
entrevista - Dr. Drauzio Varella

O fenômeno do membro-fantasma

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Empresa lança curativo natural para diabéticos
Criado para o tratamento de ferimentos ou cortes cirúrgicos, produto é feito de látex

O Estado de São Paulo - 14/06/2004


Hoje nós vamos falar de um fenômeno que durante décadas foi motivo de segredo, vergonha e despertou em muitos o medo da loucura! Imagine passar pelo trauma de uma amputação e acordar sentindo que a perna, o braço perdido ainda está lá? Que assombração é essa que os olhos não vêem, mas o cérebro sente?

Há cinco anos, um coágulo no sangue interrompeu a circulação no braço direito de Ângela. Não houve outro jeito senão amputar. Estranhamente até hoje, anos depois da cirurgia, Ângela sente a mão amputada, como se estivesse lá, no mesmo lugar. Ângela tem o que os médicos chamam de membro-fantasma

"Sinto que meus dedos estão mais ou menos por aqui. E a parte principal da mão eu sinto ligada a ponta do braço", diz Ângela Button.

A sensação de ter um membro-fantasma é muito real. Logo que perdem a perna, muitos pacientes sentem o impulso de sair da cama e andar - e acabam caindo. Pessoas com mãos fantasmas tentam atender o telefone! Por que será que isso acontece? A ciência já provou que não se trata de um simples apego emocional ao membro amputado. E nem é o braço, ou a perna, que gera o fantasma. É o cérebro.

"A área que representa as sensações na mão amputada está intacta no cérebro de Ângela. Para o cérebro é como se a mão ainda estivesse lá", explica o neuropsicólogo Peter Halligan.

A camada mais externa do cérebro, chamada córtex, contém uma espécie de mapa do corpo humano. Esse mapa foi descoberto na década de 1950, por Wilder Penfield, um brilhante neurocirurgião canadense.

Durante as cirurgias cerebrais que fazia, Penfield mantinha os pacientes acordados. Estimulava pontos espalhados pelo cérebro e perguntava o que eles sentiam. O médico percebeu que cada sensação tem uma área cerebral responsável por ela. Ele construiu um mapa sensorial onde o corpo humano está representado de uma forma bem diferente da que a gente vê no espelho.

A imagem tão estranha e distorcida de nosso corpo sensorial, criado pelo cérebro, é corresponde à nossa sensibilidade ao longo do corpo. Veja só: no cérebro, a área dedicada a sentir as mãos ocupa espaço equivalente ao do tronco inteiro! Os lábios e a língua também são desproporcionais.

Não é a toa que o cérebro faz isso. Precisamos de todas as sutilezas da sensibilidade para aproveitar ao máximo estas partes do corpo.

Nosso mapa sensorial fica no lobo parietal. Parece um corpo deitado, com algumas modificações. A região da sensação dos pés, por exemplo, fica perto dos órgãos genitais. A área dedicada ao rosto não está perto do pescoço, como se poderia imaginar, mas é vizinha da região sensorial das mãos.

Isso explica o que Ângela sente quando tocam a bochecha dela. "Sinto cócegas no meu dedinho", conta Ângela.

Isso acontece porque, depois da amputação, a área cerebral dedicada a sentir a mão passa a receber informações das áreas vizinhas: rosto e parte superior do braço. É por isso que Ângela sente a mão fantasma quando estas duas partes do corpo são tocadas. E olha, esse fenômeno pode acontecer com qualquer parte do corpo. Tem gente que sofre com vesícula fantasma, apêndice fantasma, seio fantasma...

"Se alguém sentar neste espaço territorial, a mente guarda ainda a propriedade desse espaço, até hoje eu dou um pulo. É como se alguém estivesse sentando no lugar da minha perna", conta o iatista Lars Grael.

Em agosto de 98, Lars Grael, medalhista olímpico, foi vítima de um acidente gravíssimo. Ele participava de uma competição no litoral do Espírito Santo, quando foi atingido por uma lancha desgovernada. A hélice dilacerou na hora a perna direito do iatista.

"Foram 10 cirurgias ao todo. Umas duas semanas depois começaram a retirar gradualmente os analgésicos e foi aparecendo a dor fantasma", lembra Lars. "A ponto de dar um pulo, de ter um sobressalto de noite, de madrugada. Estava numa reunião qualquer e vinha o choque, dava um salto na cadeira".

"Muitas vezes o paciente esconde isso com medo de ser entendido como maluco. Já tive situações de perguntar ao paciente: 'Você sente o membro amputado?'. 'Não'. Eu digo: 'Isso é normal. Eu também sou amputado, também sinto'. 'Bom, já que o senhor está falando, na verdade eu sinto, mas não queria falar porque o senhor ia achar que eu estava maluco", explica Marco Guedes, o ortopedista de Lars.

Marcos Guedes sofreu uma amputação abaixo do joelho esquerdo há 20 anos.

"Sinto de uma maneira mais baixa do que sentia 10 anos atrás. E outra coisa que eu sinto é que é mais notável na extremidade, nos dedos do pé, no calcanhar", diz Guedes.

Mesmo amputado, Lars não abandonou o esporte. Seu corpo já se adaptou. Aos poucos, o cérebro vai fazendo o mesmo.

"Ao longo desses cinco anos e meio, a sensação de dor no tornozelo, no calcanhar, e no joelho está apagando, já sinto muito raramente", observa Lars.

Os tratamentos para curar a dor fantasma ainda são experimentais. Tentativas para ajudar o cérebro a reorganizar o mapa sensorial.

"O paciente começa a trabalhar a musculatura que mexe o pé, que mexeria o pé. Isso é altamente desejável, porque você faz um exercício com essa musculatura. A drenagem sanguínea é favorecida, melhora a sustentação da prótese", diz Guedes.

"Hoje sou altamente conformista de que sou amputado e vivo bem como estou. Porém, como vivi 34 anos com a perna e há cinco anos e meio sem a perna, em todos os meus sonhos à noite, eu tenho a perna. O cérebro, o inconsciente ainda mantém a memória anterior", diz Lars. "Hoje eu sou um grande jogador de tênis nos meus sonhos, coisa que eu não era antes. É muito comum eu sonhar com uma partida inteira, desde o primeiro ponto até o final, ganhando ou perdendo. Acordo suado e feliz por ter jogado uma partida de tênis, com a perna que eu não tenho".

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