Hoje nós vamos falar de um fenômeno que durante décadas foi motivo de segredo, vergonha
e despertou em muitos o medo da loucura! Imagine passar pelo trauma de uma amputação e
acordar sentindo que a perna, o braço perdido ainda está lá? Que assombração é essa
que os olhos não vêem, mas o cérebro sente?
Há cinco anos, um coágulo no sangue interrompeu a circulação no braço direito de
Ângela. Não houve outro jeito senão amputar. Estranhamente até hoje, anos depois da
cirurgia, Ângela sente a mão amputada, como se estivesse lá, no mesmo lugar. Ângela
tem o que os médicos chamam de membro-fantasma
"Sinto que meus dedos estão mais ou menos por aqui. E a parte principal da mão eu
sinto ligada a ponta do braço", diz Ângela Button.
A sensação de ter um membro-fantasma é muito real. Logo que perdem a perna, muitos
pacientes sentem o impulso de sair da cama e andar - e acabam caindo. Pessoas com mãos
fantasmas tentam atender o telefone! Por que será que isso acontece? A ciência já
provou que não se trata de um simples apego emocional ao membro amputado. E nem é o
braço, ou a perna, que gera o fantasma. É o cérebro.
"A área que representa as sensações na mão amputada está intacta no cérebro de
Ângela. Para o cérebro é como se a mão ainda estivesse lá", explica o
neuropsicólogo Peter Halligan.
A camada mais externa do cérebro, chamada córtex, contém uma espécie de mapa do corpo
humano. Esse mapa foi descoberto na década de 1950, por Wilder Penfield, um brilhante
neurocirurgião canadense.
Durante as cirurgias cerebrais que fazia, Penfield mantinha os pacientes acordados.
Estimulava pontos espalhados pelo cérebro e perguntava o que eles sentiam. O médico
percebeu que cada sensação tem uma área cerebral responsável por ela. Ele construiu um
mapa sensorial onde o corpo humano está representado de uma forma bem diferente da que a
gente vê no espelho.
A imagem tão estranha e distorcida de nosso corpo sensorial, criado pelo cérebro, é
corresponde à nossa sensibilidade ao longo do corpo. Veja só: no cérebro, a área
dedicada a sentir as mãos ocupa espaço equivalente ao do tronco inteiro! Os lábios e a
língua também são desproporcionais.
Não é a toa que o cérebro faz isso. Precisamos de todas as sutilezas da sensibilidade
para aproveitar ao máximo estas partes do corpo.
Nosso mapa sensorial fica no lobo parietal. Parece um corpo deitado, com algumas
modificações. A região da sensação dos pés, por exemplo, fica perto dos órgãos
genitais. A área dedicada ao rosto não está perto do pescoço, como se poderia
imaginar, mas é vizinha da região sensorial das mãos.
Isso explica o que Ângela sente quando tocam a bochecha dela. "Sinto cócegas no meu
dedinho", conta Ângela.
Isso acontece porque, depois da amputação, a área cerebral dedicada a sentir a mão
passa a receber informações das áreas vizinhas: rosto e parte superior do braço. É
por isso que Ângela sente a mão fantasma quando estas duas partes do corpo são tocadas.
E olha, esse fenômeno pode acontecer com qualquer parte do corpo. Tem gente que sofre com
vesícula fantasma, apêndice fantasma, seio fantasma...
"Se alguém sentar neste espaço territorial, a mente guarda ainda a propriedade
desse espaço, até hoje eu dou um pulo. É como se alguém estivesse sentando no lugar da
minha perna", conta o iatista Lars Grael.
Em agosto de 98, Lars Grael, medalhista olímpico, foi vítima de um acidente gravíssimo.
Ele participava de uma competição no litoral do Espírito Santo, quando foi atingido por
uma lancha desgovernada. A hélice dilacerou na hora a perna direito do iatista.
"Foram 10 cirurgias ao todo. Umas duas semanas depois começaram a retirar
gradualmente os analgésicos e foi aparecendo a dor fantasma", lembra Lars. "A
ponto de dar um pulo, de ter um sobressalto de noite, de madrugada. Estava numa reunião
qualquer e vinha o choque, dava um salto na cadeira".
"Muitas vezes o paciente esconde isso com medo de ser entendido como maluco. Já tive
situações de perguntar ao paciente: 'Você sente o membro amputado?'. 'Não'. Eu digo:
'Isso é normal. Eu também sou amputado, também sinto'. 'Bom, já que o senhor está
falando, na verdade eu sinto, mas não queria falar porque o senhor ia achar que eu estava
maluco", explica Marco Guedes, o ortopedista de Lars.
Marcos Guedes sofreu uma amputação abaixo do joelho esquerdo há 20 anos.
"Sinto de uma maneira mais baixa do que sentia 10 anos atrás. E outra coisa que eu
sinto é que é mais notável na extremidade, nos dedos do pé, no calcanhar", diz
Guedes.
Mesmo amputado, Lars não abandonou o esporte. Seu corpo já se adaptou. Aos poucos, o
cérebro vai fazendo o mesmo.
"Ao longo desses cinco anos e meio, a sensação de dor no tornozelo, no calcanhar, e
no joelho está apagando, já sinto muito raramente", observa Lars.
Os tratamentos para curar a dor fantasma ainda são experimentais. Tentativas para ajudar
o cérebro a reorganizar o mapa sensorial.
"O paciente começa a trabalhar a musculatura que mexe o pé, que mexeria o pé. Isso
é altamente desejável, porque você faz um exercício com essa musculatura. A drenagem
sanguínea é favorecida, melhora a sustentação da prótese", diz Guedes.
"Hoje sou altamente conformista de que sou amputado e vivo bem como estou. Porém,
como vivi 34 anos com a perna e há cinco anos e meio sem a perna, em todos os meus sonhos
à noite, eu tenho a perna. O cérebro, o inconsciente ainda mantém a memória
anterior", diz Lars. "Hoje eu sou um grande jogador de tênis nos meus sonhos,
coisa que eu não era antes. É muito comum eu sonhar com uma partida inteira, desde o
primeiro ponto até o final, ganhando ou perdendo. Acordo suado e feliz por ter jogado uma
partida de tênis, com a perna que eu não tenho".
|